Orientação Pedestre - Baltazar e Catarina campeões no Jamor

18-12-2021

Jorge Baltazar e Catarina Félix são os novos campeões nacionais de orientação pedestre em Distância Média, nos escalões H55 e D50. Os títulos foram conquistados, sábado passado, no Jamor (Oeiras) onde, numa organização do CPOC, decorreu o respetivo campeonato nacional. Na mesma prova, e por equipas, o Grupo Desportivo União Azoia sagrou-se campeão em Iniciados Masculinos, através de Miguel Canana, André Pereira, Bernardo Soares e Rodrigo Rusga.

Já falaremos de outros resultados, mas, primeiro, fica o agradável registo de que, quase no termo de uma segunda época de generalizada frustração competitiva por conta da pandemia, foi possível, em três fins de semana consecutivos, pôr de pé outros tantos campeonatos nacionais. Depois das Estafetas e do Absoluto, foi agora a vez da Distância Média.

Um evento com estatuto de campeonato nacional reclamaria, em princípio, a estreia de um novo mapa, mas as contingências da situação que vivemos impedem, nesta modalidade de escassos recursos, um investimento de cartografia sem garantia de utilização. A prova foi assim disputada no mesmo terreno onde o CPOC tinha organizado o seu I Troféu de Orientação, em novembro de 2002!

Em 19 anos, abatem-se árvores, plantam-se e crescem outras, avança ou recua o mato rasteiro, abrem-se carreiros e por falta de uso desaparecem pequenas veredas, levantam-se cercas onde não existiam e, em contrapartida, ficam mais transitáveis passagens que eram de difícil atravessamento. Um novo lago foi construído reconfigurando a paisagem envolvente. Em 19 anos, até a Especificação Internacional para Mapas de Orientação (ISOM) sofreu alterações.

Tudo isso aconteceu, mas aconteceu também que o mapa, dantes chamado "Complexo Desportivo do Jamor" e agora simplesmente "Jamor", foi sofrendo sucessivas revisões e passou a incorporar as novas regras de cartografia. A última atualização é já deste ano e os mais de 400 participantes na prova de 11 de dezembro dificilmente terão encontrado no mapa desculpa para os seus eventuais erros de navegação.

Esplendor na relva

Mesmo que nem tudo tivesse sido perfeito, restaria sempre o privilégio de se ter competido no magnífico cenário do Centro Desportivo Nacional do Jamor. Os percursos desenrolaram-se na encosta a sul do Estádio, nas colinas a leste do Clube de Ténis e da Faculdade de Motricidade Humana, bem como no vale que corre entre essas duas elevações e onde se inscrevem o Centro Náutico, a parede de escalada e os campos de treino, entre outros equipamentos.

Nesse coração do maior complexo desportivo português é que justamente foram instaladas as partidas e chegadas. Tratando-se de um desporto com partidas desfasadas, houve atletas a evoluir por todo aquele vasto espaço durante mais de três horas, embora o tempo dos vencedores de cada escalão tenha no geral, como é de regra, rondado os 35 minutos. Desfrutámos, pois, de uma arena perfeita para a promoção da modalidade, com a qual acabaram por tomar contacto visual os praticantes de outras atividades, que sobretudo aos sábados de manhã demandam aquelas paragens em grande número.

E o dia esteve encantador. Depois de alguns momentos de chuva e nuvens carregadas ao longo da semana, o sábado despertou claro e abriu-se numa manhã soalheira. Foi empolgante ver os concorrentes sprintarem no funil de chegada, montado num campo aberto e relvado. Até crianças imitavam os pais acelerando nesse derradeiro esforço - um esplendor na relva.

Carlos Lopes e Carsten Jorgensen

Nas últimas quatro décadas, muitas páginas brilhantes se escreveram neste mesmo centro desportivo onde agora se realizou o CN Distância Média. E nem vale a pena resgatar a memória de tantas finais da Taça de Portugal em futebol ou as competições internacionais de ténis. Quem tiver mais de 30 anos há de certamente recordar uma imagem de 1999 que foi assim descrita pelo jornal Público na sua edição de 25 de Julho: "O Estádio Nacional serviu de palco a um novo recorde do Guinness: mais de 30 mil figurantes formaram no relvado o logótipo da candidatura portuguesa à organização do Euro 2004." Lembram-se?

Para quem gosta de atletismo, há provavelmente um feito mais marcante. Ocorreu a 24 de março de 1985. Carlos Lopes, então com 38 anos, fez nesse dia a sua última corrida com o fato da seleção e renovou o título de Campeão Mundial de Corta-Mato. Essa glória já lhe pertencia desde 1984, ano em que também foi Campeão Olímpico da Maratona. Mas correr em casa, diante do seu público, era uma oportunidade irresistível, apesar de o favoritismo nessa temporada pender para Fernando Mamede, que tinha vencido os corta-matos regional e nacional. Na hora da decisão, a têmpera do vildemoinhense falou mais alto. E entre os abraços de parabéns não faltou o do então Presidente Ramalho Eanes.

Nesse dia da última consagração de Carlos Lopes em Portugal, havia na Dinamarca um rapazito de 14 anos que começava talvez a ser notado nos escalões juvenis da orientação. Chamava-se Carsten Jorgensen e iniciara-se na modalidade em 1981. Não parou de progredir. Chegou ao bronze mundial (Distância Longa) no WOC de 1995 e ao ouro (Estafetas) no WOC de 1997, disputado em agosto na Noruega.

Durante 22 anos, o Jamor não tinha voltado a receber, nesta disciplina, um evento com o gabarito do de 1985. Mas a 14 de dezembro de 1997, ou seja, quatro meses depois do WOC norueguês, decorreu ali o Campeonato Europeu de Corta-Mato. E o vencedor foi... o orientista Carsten Jorgensen!

A orientação sai dos quartéis

Em 1986 um grupo de militares da marinha realizou o primeiro mapa no local (Jamor Este) e fizeram a primeira atividade de iniciação à Orientação com alunos do então ISEF (atual FMH). Nesta iniciativa estiveram envolvidos Joaquim Patrício, atual campeão de H75, como cartógrafo e monitor e Jorge Baltazar, atual campeão nacional de H55, na qualidade de aluno do 1º ano do ISEF. Certamente esta foi uma experiência marcante para o resto da vida de ambos.

Outro acontecimento que liga o Jamor à orientação teve ali lugar há 30 anos, e dificilmente alguém poderia prever as repercussões desse evento para a nossa modalidade. Falamos do Challengers Trophy, que teve a sua primeira edição em 1991, com orientação pedestre e em BTT, canoagem, escalada, rapel, slide e outros exercícios ditos "radicais". Reuniu 120 equipas de quatro elementos cada (mais dois suplentes) representando algumas das maiores empresas portuguesas. Todas as provas de floresta decorreram na serra da Lousã, mas o prólogo foi no Estádio Nacional, numa organização da Egor, que não poupou meios para receber com grande aparato os patrões das empresas, que alinharam nesta dispendiosa aventura para testarem a liderança dos seus quadros e lhes proporcionarem formação outdoor. Foi certamente o primeiro grande evento de orientação fora do meio militar e, mesmo que a maioria dos 700 participantes não tenha voltado a pegar num mapa, ficou em alguns o apelo que havia de trazê-los ao desporto federado.

GDUA em 2º na classificação coletiva

E, agora sim, voltamos aos resultados do CNDM do último fim de semana. Houve um pódio muito significativo, o de D55. Jesus Leão (2ª) e Luísa Gaboleiro (3ª) foram as damas de honor de Isabel Monteiro (1ª), antecipando o que viria a ser o escalonamento coletivo de clubes, onde o GDU Azoia surge imediatamente atrás do vencedor COC.

Outra boa notícia para a nossa associação foi a classificação de mais uma equipa no Campeonato Nacional. Além nos Iniciados Masculinos, cuja vitória destacámos logo na abertura desta notícia, averbámos um 4º lugar em VetM2, com as pontuações de Fernando Mendes (6º H50), Nuno Barata Esteves (7º H45) e António Laia Jr (18º H50).

Sorte diferente tiveram os Juvenis, não podendo repetir a façanha de duas semanas antes, quando haviam sido campeões nacionais de Estafetas. Desta vez, tanto as raparigas como os rapazes ou se apresentaram desfalcados ou viram percursos não validados. Em D16 os resultados de Joana Canana (vice-campeã) e Sofia Pulquério (8ª) não tiveram expressão coletiva, dada a desclassificação de Carolina Rusga. Em H16, em face da ausência de Guilherme Clímaco, a classificação por equipas estava fora de questão, pelo que a desqualificação de Tiago Gomes foi nesse aspeto irrelevante, ficando apenas a luzir o 2º lugar de Miguel Manso.

Outro resultado de vulto em termos individuais é o 3º lugar de João Sousa em H20. Ana Casaca foi 5ª em D40, Pedro Laia 7º em H40 e Noel Cabeça 9º em H55.

No total, o GDU Azoia esteve representado por 30 atletas. Entre os participantes de escalões de promoção ou desvinculados do campeonato nacional, sublinhamos o 1º lugar de Sérgio Canana em H21B e o 3º lugar de Harriet Tiderman em Difícil Curto.

Propositadamente, deixámos para o fim a referência à prestação do nosso atleta mais credenciado na Elite, Vasco Mendes. O 9º lugar em H21E não macula de modo algum o seu invejável percurso. Os oito concorrentes posicionados à sua frente têm todos entre 8 e 20 anos mais do que ele e, consequentemente, maior calejamento e experiência de competição internacional. É significativo que os três representantes do Clube de Montanha do Funchal (1º, 3º e 5º da classificação) sejam todos da década de 80 e que o mais velho deles, Tiago Aires, tenha sido o campeão nacional, com uma idade muito próxima da que tinha Carlos Lopes na sua corrida de 1985. A veterania não é necessariamente uma vantagem, mas, numa modalidade desportiva em que já tivemos concorrentes no escalão H95, não é fácil dizer até onde pode chegar a fasquia da longevidade com alto rendimento.

Vem agora aí um longo período de defeso. Se a pandemia não voltar a castigar-nos ainda mais, a próxima grande prova de orientação pedestre será a 22 de janeiro. Temos cinco semanas para quebrar dietas e, depois, combater excessos de gulodice, reforçar treinos e encarar 2022 com novas energias.

Boas Festas para todos. Com juizinho, se possível.

Manuel Dias