Orientação Pedestre - “Tricampeões” em Estafetas

01-12-2021

O termo vai aqui num sentido pouco usual mas nem por isso menos exato. O GDU Azoia foi, no mesmo dia, três vezes campeão de Estafetas. Aconteceu no sábado passado na Gafanha da Boa Hora, Vagos, tendo o clube conquistado o ouro nos escalões de Juvenis Femininos, Juvenis Masculinos e Veteranos Masculinos 3.

Foi uma prova marcante em vários ângulos, a começar pelo terreno. Já tínhamos saudades duma floresta assim, onde se pode correr em todas as direções, cabendo ao atleta fazer opções de percurso à medida das suas competências: alongando a distância para beneficiar de referências mais seguras ou arriscando navegar o mais próximo possível da "red line" sem perder contacto com o mapa; contornando elevações e áreas menos limpas ou enfrentando todas as adversidades sem temer cansaço ou arranhões.

Se excetuarmos a prova de Loulé em setembro do ano passado, há mais de 20 meses que em Portugal se não disputava em floresta um evento de orientação pedestre de âmbito nacional. Os últimos tinham sido, em fevereiro de 2020, o POM de Santiago do Cacém e o Meeting de Arraiolos. Eis, pois, um segundo motivo para a expectativa que rodeou este Campeonato Nacional de Estafetas.

E uma terceira causa de regozijo foi precisamente a situação de se tratar de estafetas, que constituem a grande festa da orientação. O facto de integrar uma equipa, de o resultado de cada percurso contar para a classificação final, gera uma cumplicidade e uma contagiante dinâmica de grupo que aumentam o sabor da competição. A estratégia na distribuição do trio, o incentivo dos companheiros, o esforço para recuperar ou manter posições, o controlo no ponto de espectadores, a luta às vezes renhida na passagem de testemunho, tudo isso suscita na arena uma onda de entusiasmo e saudável nervosismo, um frenesim que acaba sempre por explodir em ruidosas manifestações de alegria.

E, sobre todas estas assinaláveis razões, o GDU Azoia soma ainda a circunstância de os resultados lhe terem sido particularmente favoráveis. Devido à pandemia, o anterior campeonato de estafetas, em Celorico da Beira, tinha-se realizado em setembro de 2019. Na altura, o clube levou apenas duas equipas a concurso e mais duas "populares", além de dois jovens nos escalões 10/12, num total de 14 participantes. Desta vez éramos 24, e todos organizados em equipas "oficiais", inscritas em oito categorias diferentes.

Além das três vitórias, fomos vice-campeões em Veteranos Femininos 2, com Jesus Leão, Catarina Félix e Luísa Gaboleiro. A nossa troica de veteranas, com extenso currículo de pódios individuais, não deslustrou os seus pergaminhos. A única falha de monta deveu-se, ironicamente, a um esquecimento de óculos.

Mas recentremos o foco nos heróis do dia. Uma das notas mais salientes foi a progressão das nossas juvenis. Há dois anos, concorrendo em iniciadas, Carolina Rusga, Sofia Pulquério e Joana Canana tinham sido vice-campeãs, a três minutos das vencedoras, que representavam o Clube de Orientação do Minho. Desta vez, as nossas meninas deixaram a equipa minhota constituída pelas mesmíssimas atletas a mais de 31 minutos, com uma vantagem que foi engordando de percurso para percurso.

E o mesmo sucedeu com os rapazes. Tiago Gomes, Guilherme Clímaco e Miguel Manso, que também já tinham alinhado juntos em 2019, batendo então por 35 minutos uma equipa do GD 4 Caminhos, cilindraram agora os concorrentes dos Amigos da Montanha. A diferença voltou a ser superior a 34 minutos e, tal como nas raparigas, a evolução do cronómetro foi constante. Com esta vitória fizeram o pleno desde que competem juntos (2018, 2019 e 2021).

Já em Veteranos Masculinos 3, embora o resultado final reflita uma confortável vantagem de 15 minutos, o desenrolar da corrida foi mais incerto. Noel Cabeça, com um percurso limpo, entregou em 2º lugar a apenas 18 segundos de Jadir Pereira, o velocíssimo brasileiro que representa o clube do Mondego. Jorge Baltazar fez ainda melhor, colocando a equipa na liderança, com margem de quase 7 minutos. No último percurso, Manuel Dias só teve de gerir o pecúlio amealhado pelos companheiros, mas inesperadamente o 2º lugar não foi para as cores do Mondego. Carlos Monteiro, do COC, neutralizou uma desvantagem superior a 10 minutos e impôs-se ao rival. Surpreendente foi o apagão do CPOC e COALA, supostos candidatos às medalhas.

Graças à eficiência do clube organizador, foi possível a partir da arena acompanhar a competição dos Seniores Masculinos e, no início da prova, a delegação de Azoia vibrou com a prestação de Vasco Mendes, que encabeçou boa parte da corrida, terminando o primeiro percurso em 2º lugar, a apenas 22 segundos de João Novo. Fernando Mendes, que recebeu o testemunho do filho, e José Gomes deram também o seu melhor, mas sem argumentos naturalmente para aguentar aquela discussão. A vitória acabou sorrindo ao COC, onde Manuel Oliveira, no segundo percurso, carregou a equipa da 5ª para a 1ª posição. E no escalão sénior feminino ganharam de novo os leirienses, único clube a arrecadar mais títulos que o GDUA.

Além das cinco já referidas, a nossa associação esteve ainda representada em mais três categorias. Em Iniciados Masculinos, Rodrigo Rusga, André Espada Pereira e Miguel Canana ficaram em 4º lugar, a escassos 4 segundos do pódio. Rui Miguel Pereira, Pedro Laia e Luís Boal classificaram-se na 5ª posição em VetM1, e Ana Casaca, Patrícia Pereira e Sandra Mestre foram oitavas em Veteranos Femininos 1.

Desporto de família

Duas notas curiosas para salientar os laços domésticos nalgumas equipas e a coragem de mulheres que integraram "turmas" masculinas. A orientação como desporto de família é uma das palavras de ordem da modalidade, e isso mesmo ficou patente em alguns exemplos do último fim de semana. Juliana Pedro, do CAOS, acumulou as duas curiosidades: correu em Iniciados Masculinos e partilhou a vitória com o seu irmão João Pedro. Outro tanto fez Leonor Ferreira, do CPOC, que ganhou em Cadetes Masculinos, ao lado do seu irmão Afonso Ferreira. Fátima Pires, em Vet M2, ficou longe do pódio mas teve o consolo de receber o testemunho do seu irmão José Fernandes. Stepanka Betkova, representando um emblema diferente, não pôde alinhar com o marido, Paulo Franco, na formação vencedora de Seniores Masculinos, mas ajudou o Ori-Mondego a conquistar um honroso 5º lugar nesse mesmo escalão, que, como já ficou dito, também reuniu pai e filho numa equipa do GDU Azoia.

Nas Estafetas Populares, sem os requisitos do Campeonato Nacional, verificaram-se igualmente casos de relações familiares. Dinis Lopes juntou-se ao pai Tiago Lopes numa equipa do CAOS, exatamente como Bernardo e Sérgio Contente defendendo a insígnia do COA; o casal Ana Carreira e Acácio Porta Nova conjugaram esforços em favor do CPOC e o mesmo fizeram Cláudio Tereso e Maria João Borges numa equipa de dupla bandeira.

Peculiar também foi o caso do Clube de Montanha do Funchal em que maridos e mulheres construíram duas equipas em espelho quase perfeito. Rafaela Campanha, Olívia Sousa e Rita Rodrigues, todas com bebés de tenra idade, correram em SenF, enquanto Miguel Reis e Silva e Tiago Aires ficaram à beira do pódio em SenM. Só faltou Tiago Romão que, deslocado em missão a mais de 3000 km de Vagos, foi substituído pelo madeirense Fábio Pereira.

Voltando à experiência do nosso clube nesta aventura por terras gandaresas e à margem da competição, fica o agradável registo de termos dormido "dentro" do mapa. A maior parte de nós podia lá imaginar que, a caminho do primeiro ponto, havia de contornar a cerca do parque de campismo onde acabara de pernoitar? Chegados a desoras na véspera, não dormimos muito, mas acordámos regalados com o movimento do outro lado da rede, onde luziam um, dois, três prismas. Não faltaram palpites: aquela cota, no enfiamento da fita balizadora, só pode ser o triângulo de partida. E era mesmo. Adivinhá-lo não representou qualquer vantagem competitiva, mas deixou no peito um calorzinho que ajudou a levantar os ombros na hora da demonstração. Partida em massa para o primeiro percurso daqui a dez minutos. Ora essa, vamos a isso!

Manuel Dias


Vídeo da Partida